
Nunca vi ninguém com olhos como os teus, uns olhos que sorriam contigo, uns olhos expressivos e cativantes, uns olhos côr de mel.
Cruzamos o olhar numa manhã de Outubro, na sala 68 no pavilhão novo, o das paredes vermelhas e portas verdes, eu vi-te chegar e mesmo sem saber o teu nome, fixei-te.
Esperei a chamada do professor para associa-los a um nome, ao teu e, depois de levantares o braço e dizeres "presente", procurei-te na fila de trás, quase encostado á parede. Eu estava do lado oposto mas senti-me logo com vontade de me chegar mais perto.
Eras aluno novo no colégio, na minha turma que já conhecia desde o ciclo, agora, sentia-me crescida, já estava no secundário e o uniforme que usava-mos destinguia-nos dos mais novinhos pela côr azul do pullover. Sentia-me crescida e com vontade de te conhecer, afinal, pensava eu, já não era nenhuma criança e só por te ter fixado me fazia sentir teenager, aquela idade em que passamos ás descobertas daqueles sentimentos que para nós, com 13 anos, ainda nos parecem tão novos e desconhecidos.
Gostei de ti, mas nesse dia só eu reparei que existias, tu nem viste.
Dias mais tarde o nosso olhar cruzou-se em simultaneo,ris-te, eu, corei. Sem dar-mos conta acabamos por ficar lado a lado na sala, na mesma fila de trás, juntamente com o "Gonça" que se viria também a tornar inseparável.
Os tais sentimentos que não conhecia até então apareceram, comecei a dar conta que suspirava sempre que te rias para mim, que te abraçavas ou me davas um beijo e dizias que me adoravas, que eu era muito querida, amiga e diferente das "outras". Comecei a sentir que as músicas que ouvia pareciam escritas para nós, senti que eras a primeira pessoa em quem pensava assim que acordava, e a última que recordava no final do dia, comecei a sentir que aquilo que estava a acontecer, tinha um nome, eras o meu primeiro amor, um amor adolescente.
Sempre juntos, eu , tu e o Gonça ajudavamo-nos em tudo, estudavamos juntos, frequentavamos a casa uns dos outros, começamos a ir ao cinema nos fins de semana e claro a ajudar ao "copianço" nos testes. Eramos os melhores amigos, mas eu estava apaixonada por ti, e aquelas "borboletas na barriga" que sentia sempre que te aproximavas de mim ou me davas a mão, eram cada vez mais frequentes.
Falei com o Gonça, disse-lhe o que sentia por ti, e ele , como criança que era (afinal era o que eramos os 3) não guardou segredo, riu-se e contou-te.
Fiquei reprimida depois de saber que tu já sabias de tudo, e nada aconteceu até ás férias de verão, depois, num dia quente de Junho, foi nesse dia que o teu beijo foi diferente.
Não demorou muito tempo até chegarmos á conclusão que eramos sobretudo amigos, e decidimos por isso mesmo, assim continuar, afinal, a amizade pode durar para sempre, um amor adolescente, não.
Crescemos, ainda na mesma escola mas em turmas separadas, continuavamos amigos, os 3 sempre juntos como tinhamos prometido 3 anos antes. Mas tal como tudo muda, também nós mudamos, e por falta de tempo para estar contigo, cobraste-me da pior forma, deixaste de me falar gradualmente, afastaste-te de mim, sem sequer me dizeres o que sentias, sem sequer me dizeres que sentias a minha falta, que querias que voltasse tudo a ser como no início.
Orgulhosos, nenhum de nós dava "o braço a torcer", o Gonça fazia um pouco o papel de intremediário, tentando apaziguar os nossos arrufos.
Certo dia encontro um relógio perto do portão da escola, reconheci-o como sendo teu, guardei-o comigo para te o entregar a seguir ao friado. Usei-o, e senti que estava ali um bom motivo para me aproximar de ti, senti-te comigo pelo cheiro da bracelete, pergume Lacoste, o que tanto gostavas. Sexta feira 19 de Maio de 1989, vou ter contigo depois das aulas, digo-te friamente que tenho uma coisa para te entregar, tu olhas-me com os mesmo olhos, com a mesma expressão do dia em que pela 1ª vez nos olhamos, não sorriste, mas os teus olhos, fizeram-no por ti. Eu tinha o teu relógio preferido e tu, ficaste feliz por ter sido eu a encontrá-lo, outra pessoa teria ficado com ele, um Swatch de plástico mas que na altura estava no pico da moda, (modelo nine to five, esgotado em todo o lado).
"Tinhas de ser tu a encontrá-lo!" -disseste-me sem nunca me olhar, mas os teus olhos riam, mesmo quase directos ao chão,
"És especial Sónia, nunca me vou esquecer de ti, até ao resto dos meus dias! Desculpa o mal que te fiz, desculpa se fui um parvo, obrigado!"
Eu ri-me "por dentro", afinal sempre me tinhas pedido desculpas, afinal aquele era um bom motivo para voltarmos a estar juntos, como no inicio e para sempre.
Saíste do colégio uma meia hora antes de mim, faziamos o mesmo precursso e ainda te encontrei á porta do salão de jogos, perto da Praça do Chile, estavas encostado a um carro na conversa com mais colegas nossos. Eu passei por ti, nem te olhei, tu chamaste-me mas eu fingi não ouvir, agora era eu a fazer-me de forte.
Correste até á paragem de autocarro, mas nesse dia, a Carris não falhou no horário e eu já estava a entrar no 35 para ir almoçar a casa, tu bateste no vidro da janela, desejaste-me um bom fim de semana, eu em silêncio, so articulei a palavra "Adeus"
Ligaste-me ainda nessa sexta feira, falaste com a minha mãe, eu dei uma desculpa para não atender, ela ficou com o recado; querias que eu ligasse para saber se queria ir contigo, com o Gonça e mais uns colegas sair nessa noite. O teu irmão, maior de idade conduzia o carro e levarnos-ia a casa no final da noite. Não quis ir, e por fim acabou por ninguém ir, só mesmo tu e o teu irmão...
Durante o fim de semana uma amiga comum liga-me diversas vezes, nunca me conseguiu apanhar em casa, e quando eu chegava a casa, havia sempre qualquer coisa que me fazia esquecer de lhe ligar.
Segunda feira, dia 22 de Maio, entro pelos portões do Colégio com a certeza de que a partir daquele dia iriamos ser mais unidos, que não nos iriamos separar mais, que a nossa amizade perduraria longos anos.
Nesse mesmo dia, entendi que a morte chega a qualquer altura, sem avisar, em qualquer idade sem ter isso em conta e que as leis da vida, nem sempre seguem o caminho esperado.
Desde esse dia nunca mais disse "Adeus", para mim há sempre um "até logo", "até breve" ou seja o que fôr. Não mais me vou esquecer das tuas últimas palavras, não mais me vou esquecer do teu sorriso, dos teus olhos, da tua irreverencia.
Eras uma criança de 15 anos, e farias na próxima Sexta-Feira dia 31 de Março, 32 anos. Eu e o Gonça, continuamos a falar esporádicamente, continuamos amigos de infância, mas existe um espaço, um espaço sempre preenchido por ti, para nós que crescemos, que nos tornamos adultos, tu serás sempre o nosso amigo de 15 anos que nos deixou cedo de mais.
Para mim, João, tu vais ser sempre o meu melhor amigo de infância, o menino de olhos côr de mel que vi entrar naquela sala do colégio que nos acolheu.
Para mim, vais ser sempre o "meu João", o menino dos olhos côr de mel.
Um beijo amigo
estejas tu, onde estiveres.
4 comentários:
Um beijo grande!
Não consigo dizer nada...apenas mandar-te muitos beijos!:(
A.
fiquei sem palavras...
talvez porque passei por duas situações identicas nestes ultimos dois anos,
e secalhar porque ainda eu não saí dessa fase de "infancia".
uma coisa curiosa, também eu nunca gosto de dizer "adeus" soa-me a despedidas e nunca gostei delas.
um beijo muito grande miga <3
Fiquei arrepiadíssima com o que escreveste! Parece que temos de aproveitar sempre o tempo da melhor forma, porque podemos nunca mais ter outra oportunidade!
Sensibilizou-me muito este texto!
Muitos beijos e um abraço muito apertado!
Enviar um comentário