31 janeiro 2006

31 de Janeiro de 1993

Sempre te conheci, mesmo antes de te ver.
Falava em ti num futuro próximo e escolhia-te o nome e a côr dos olhos, antevia-te os traços e dizia que ias ser parecida comigo.
serias menino ou menina? Menino! para não ocupares o meu lugar, no coração do meu único irmão.
Foi sempre assim, desde os meus 9 anos, sentava-me no sofá com o teu pai, mais velho que eu quase 10 anos e , deitados com um cobertor que a tua avó nos trazia para não sentirmos frio a ver televisão, falavamos de ti, imaginavamos-te muitos anos antes de nasceres.
No verão conhecia as novas namoradas do teu pai, mas nenhuma delas era a tua mãe, eu imaginava que poderiam ser, mas o teu pai ria-se, dizia que ainda era muito novo, e explicava-me que eram só namoricos, mas que nunca deveria querer ser como elas, porque ele era um malandro namoradeiro, eu ria-me sem nunca entender o motivo, mas ria-me, os olhos dele, o sorriso, o tamanho, faziam-me sentir tão protegida, ele ia ser um bom pai!
Acho que sempre pensei em ti e sempre te desejei porque na minha inocência, pensava que quando nascesses eu ainda iria ser assim, pequena, e te poderia ajudar a crescer, para depois brincares comigo.

Demorou até o teu pai conhecer a tua mãe, eu tinha 13 anos, ele fazia 22, fomos apresentadas (eu e a tua mãe), numa noite de festa em que eu era o centro das atenções por ser irmã do aniversariante, por ser tão novinha e ter sido apanhada a beber amendoa amarga ás escondidas e por ter "pedalada" para a noitada que estava a acontecer.
Afinal 2 meses depois vi-a novamente, a tua mãe, gostei dela mas achei-a muito tímida , aos poucos e com o passar do tempo foi sendo visita da casa, foi sendo minha amiga e eu comecei a ser apelidada de fofinha,foi sendo família e, até ao casamento foi um ápice, eu até pensei que tu já aí viesses, mas não, tive de esperar ainda mais.
Depois de 1 negativo, e de 9 meses de casamento, eis que chega a novidade, pelo telefone, a tua mãe acorda-me "Estou Grávida, estou grávida, parabéns, vais ser tia!"

O meu sorriso foi enorme,
afinal vinhas aí, como serias, como te iriam chamar, mas a maior dúvida, irias gostar de mim?
Passaram meses até saber que vinhas aí Joana, a minha Joana, a Joana com quem sempre desejei brincar, sonhar e ver crescer, a única diferença é que eu já não mais tinha 9 anos, e agora?
Como iria eu ver-te crescer se nem tempo tinha para mim?
Nessa altura não tinha a noção de uma gravidez, para mim eram 9 meses em que até aos 3/4 nem se nota a diferença , depois lá começa a barriga a ficar mais saídinha e pronto, 9 meses passam e tu já cá estás fora. Mas não, vivi a tua gestação intensamente, fui a todas as ecografias, tentei ajudar no enxoval, arrumar o quartinho e decorar, pensar em ti e no teu rosto mesmo antes de nasceres, chorar de alegria quando ouvia o teu coração, abraçar a barriga da tua mãe como quem abraça a vida.
Dia 30 de Janeiro, o teu pai liga para casa dos avós, eras tu que estavas a querer nascer, a mãe foi para a MAC e o pai voltou para me vir buscar, sim , eu queria estar presente. Eram 9 da noite.

ÁS 00horas nada, noticias nenhumas! A tua mãe estava em trabalho de parto mas a dilatação não era a suficiente, a srª enfermeira Camila veio avisar-nos que estava tudo bem e que o pai deveria permanecer calmo, seria chamado para assistir assim que a mãe fosse levada para a box da sala de partos.
Eu ria-me, o teu pai estava branco como cal, nervoso, só falava em ti e na tua mãe, eu acalmava-o, e enervava-me por não saber o que fazer.
Na altura, nada de telemóveis, ligavamos da cabine para casa dos avós e amigos chegados dado sempre novidades actualizadas.
Passou a noite, a manhã (em que faltei á frequencia de Historia das intituições), a tarde e tu nada. Até que chamam o teu pai - "Venha rápido, é agora"
e ele foi, deixando para trás a familia em pulgas.

As 17:45 a enf. Camila chama-me e pela "porta do cavalo" leva-me até ti.
Chorei ao ver-te ainda ensanguentada, a olhares em redor com os olhos muito abertos, debrucei-me, beijie a testa á tua mãe e dei-lhe os parabéns, o meu olhar cruzou o teu, pequenina, indefesa e já tão amada, -"olá amor, sou a tia" e cantei o que cantava sempre que estava mais próxima de ti, nos fins de semana que dormia em casa dos teus pais "voçê é linda, mais que demais, voçê é linda sim, onda do mar do amor que bateu em mim" e tu, seguiste o som, e ris-te, aquele riso reflexivo, que me disse que sim, que sabias quem eu era, que conhecias a minha voz e eu, eu chorei mais uma vez.

Foi assim á 13 anos, e vai ser sempre assim pela vida fora, amo-te como não existem palavras, amo-te como não sei explicar, sei que te amo desde que te sonhei, e hoje és a minha menina adolescente, que ri, que chora, que conta segredos, que todos os dias quando saí da escola me liga, que me pede para ser a 1ª a saber se o teste do mês der positivo, que me dá forças para nao desistir, que hoje sonha comigo um primo que vai ter, como eu já sonhei com ela,que me abraça e diz que sou a melhor tia do mundo.
Parabéns amor, pelos teus 13 anos de vida, que me enchem todos os dias um bocadinho mais de orgulho, que me ensinam a amar cada vez mais, que me fazem rever em cada gesto e expressão, que me fazem dar a volta ao mundo se for necessário, só para te ver feliz.

Há 13 anos, o meu sonho tinha finalmente um rosto,
o teu!

3 comentários:

raages disse...

É fantastico ver crescer um irmao(a), até ao momento que nos afastamos, apartir dai as coisas ficam assustadoras.
Vemos a vida como se de slides se trata-se, assusto-me sempre que os vejo, as diferenças, a minha ausencia para com eles!
Talvez por isso me assuste a ideia vir algum dia a ser pai, é algo que nao desejo, nao me sinto capaz.
Talvez um dia mude, talvez ...

Filipa disse...

Sónia, deixaste-me de lágrimas a correr pela cara!!!
É lindo!!!
Quem sabe que o primo do sonho dela não aparece agora aos 13 anos!!!

Beijinhos e Parabéns à Joana!!!

raages disse...

Boa sorte ... ou talvez parabens!